Rio Piranhas está obstruído com areia
Vale do Açu - No início de
2008, a
cheia do rio Piranhas/Açu,
apesar de ter sido menor do que a de 1985, chegou ao centro de Ipanguaçu, avançou
na periferia de Assu, entrou nas ruas de Alto do Rodrigues e Pendências. Inundou
uma comunidade inteira
em Porto do Mangue
e outra
em Carnaubais. As
fazendas de banana, mamão, manga
e milho também foram inundadas.
O que teria acontecido para a água do rio sair de seu leito natural e invadir áreas
residenciais, onde antes, mesmo com cheias maiores (1985), não alcançava? A resposta
fica bem claro quando se visualiza o rio Piranhas/Açu do alto. O leito do rio está
totalmente obstruído de areia no trecho entre Itajá e Macau. E o que deixou o rio
obstruído também é fácil de deduzir do alto.
A mata ciliar do rio Piranhas/Açu praticamente não existe no eixo do rio entre Itajá
e Macau. Grandes fazendas de banana, outras de mamão e manga desmataram a região.
Para a pesquisadora Andréia Lessa, do Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET),
esse fator foi crucial para que a areia tenha fechado o leito do rio, forçando a
água a sair de seu curso natural.
Na época da cheia deste ano, os prefeitos dos municípios do Alto do Rodrigues e
Ipanguaçu, respectivamente Abelardo Rodrigues Filho (DEM) e José de Deus Barbosa
Filho (PP), disseram que a cheia do rio Piranhas/Açu estava sendo atípica. "O povo
estava desesperado com a possibilidade da sangria do Açude do Pataxó inundar a cidade,
porque o canal está fechado, mas terminou a água do rio Piranhas/Açu chegando à
calçada da Prefeitura", diz José de Deus.
A Defesa Civil de Ipanguaçu informou que mais de 1.500 famílias deixaram suas casas,
devido à cheia.
Em Alto do Rodrigues
, o número de famílias fora de suas residências foi menor. Mas segundo o prefeito
Abelardo Rodrigues Filho, a água chegou onde nunca havia chegado ontem, nem quando
a sangria da barragem Armando Ribeiro Gonçalves foi maior.
O bairro São Francisco foi evacuado. A água represou na lagoa e subiu nas ruas da
cidade. Mais de 250 famílias tiveram que sair de suas casas. O mesmo aconteceu
em Pendências. A
prefeita Alvanilda Bezerra conta
que os moradores da várzea, em regiões altas, acordaram com a água levando tudo.
A localidade de Logradouro,
em Porto do Mangue
, ficou debaixo d'água.
Em Carnaubais e Assu
, dezenas de comunidades
foram inundadas. Mas de 700 famílias precisaram sair de casa com seus pertences
para ficar
em escolas. As
pequenas propriedades de produtores rurais do Vale do Açu também
perderam tudo. As salinas e fazendas produtoras de camarão em cativeiro também ficaram
no prejuízo. O prejuízo ultrapassa os R$ 20 milhões.
Em todas as cidades, os moradores reclamaram da obstrução do rio. Esta semana, técnicos
do Instituto de Meio Ambiente e Desenvolvimento Econômico (IDEMA) confirmaram as
suspeitas dos moradores. Fotografias aéreas feitas esta semana, com o leito do rio
já sem água, provam que o rio está obstruído. E os principais responsáveis, no caso,
também foram as principais vítimas.
Para Damião Dantas, do Instituto Chico Mendes, ligado ao Instituto Brasileiro de
Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), não havia dúvidas de que o
principal problema do rio é a retirada da mata ciliar. Para ele, é preciso reflorestar
toda a margem do rio entre Itajá e o delta dório entre os municípios de Pendências,
Porto do Mangue e Macau.
Idema coordena projeto de recuperação da mata ciliar
O Instituto de Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente (IDEMA), em parceria com
o Ibama, Ministério Público Estadual do Meio Ambiente, Secretaria Estadual de Recursos
Hídricos e Meio Ambiente, prefeituras municipais, organizações não governamentais,
e a própria comunidade estão pondo em prática um projeto para replantar a mata ciliar.
Os trabalhos estão sendo coordenados por Ivanoska Rocha Miranda, do Idema. E esse
trabalho passa essencialmente pela efetivação do Comitê Gestor do Piranhas/Açu,
que já foi instituído pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e precisa somente
ser colocado
em atividade. O
processo está sendo discutido,
devendo ser concluído no próximo ano.
A Agência de Desenvolvimento do Seridó (ADESE) foi contratada pela Secretaria de
Recursos Hídricos e Meio Ambiente do Governo do Estado para desenvolver um estudo
e uma campanha de conscientização da população da região para com a preservação
do rio. Entre as metas, está o replantio da mata ciliar com a participação da população
da região.