A BACIA

  • Características Físicas
  • O rio Piranhas-Açu nasce na Serra de Piancó no estado da Paraíba e desemboca próximo à cidade de Macau no Rio Grande do Norte. Como a maioria absoluta dos rios do semi-árido nordestino, à exceção do rio São Francisco e do Parnaíba, é um rio intermitente em condições naturais. A perenidade de seu fluxo é assegurada por dois reservatórios de regularização construídos pelo DNOCS: O Coremas - Mãe d’Água, na Paraíba, com capacidade de 1,360 bilhões de m³ e vazão regularizada (Q 95%) de 9,5 m³/s e a barragem Armando Ribeiro Gonçalves (ARG), no Rio Grande do Norte, com 2,400 bilhões de m³ e vazão regularizada de 17,8m³/s (Q 90%) Ao longo do sistema hídrico formado pela calha do rio e seus reservatórios de regularização, denominado Sistema Curema-Açu, desenvolvem-se diversos usos como irrigação difusa, irrigação em perímetros públicos, abastecimento humano, dessedentação animal, lazer, produção energética e aqüicultura.

    A bacia hidrográfica do rio Piranhas – Açu (mapa) abrange um território de 42.900 km² distribuído entre os Estados da Paraíba e Rio Grande do Norte, onde vivem aproximadamente 1.552.000 mil habitantes. A bacia está totalmente inserida em  território semi-árido, com precipitações médias variando entre 400 e 800 mm anuais concentradas entre os meses de fev - mai. A concentração das chuvas em poucos meses do ano, conjugada a  geomorfologia da região, caracterizada por solos rasos formados sobre um substrato cristalino, com baixa capacidade de armazenamento, é responsável pelo caráter intermitente dos rios da região. Além disso, o padrão de precipitação tende a apresentar uma forte variabilidade inter anual, ocasionando a alternância entre anos de chuvas regulares e anos de acentuada escassez hídrica, levando à ocorrência de secas hídricas. Por outro lado as taxas de evapotranspiração são bastante elevadas, podendo chegar a mais de 2000 mm/ano, o que ocasiona um déficit hídrico significativo e se constitui em fator chave a ser considerado na operação dos reservatórios da região.

    A formação geológica da maior parte da bacia é Cristalina, isto é, formada por rochas impermeáveis com baixa capacidade de armazenamento de água, a qual freqüentemente é de baixa qualidade. As formações sedimentares, com maior porosidade e, portanto maior capacidade de armazenamento de água, estão presentes apenas em dois pontos da bacia: uma menor, na sub-bacia do rio do Peixe, próximo a Souza-PB e outra, integrante da formação Jandaíra, abrangendo o Baixo - Açu. Outra fonte importante de água subterrânea são os aqüíferos aluviais, que na maioria dos casos, fornecem água de boa qualidade para abastecimento humano, animal e irrigação.

    As principais unidades de solo que ocorrem na Bacia são os solos brunos não cálcicos e litólicos, que são solos geralmente com boa fertilidade, porém, são rasos e pedregosos não se adequando à prática da agricultura intensiva.

    Os solos mais explorados na agricultura irrigada são os solos aluviais, dispersos em toda bacia, e os vertissolos presentes na bacia do rio do Peixe na Paraíba. Outras unidades de solo dignas de nota são os podzólicos vermelho-amarelos, os latossolos e os cambissolos.

    A cobertura vegetal predominante na Bacia é a caatinga hiperxerófila herbáceo-arbustiva. Na parte sul da Bacia, nas proximidades do município de Monte Horebe-PB, em pontos de altitude mais elevada, ocorre a caatinga hipoxerófila, de porte arbóreo.

    As espécies mais comuns são: catingueira, baraúna, faveleira, jurema, marmeleiro, pereiro, juazeiro, e cactáceas (xiquexique, mandacaru, facheiro). Nas margens dos rios é comum a ocorrência de caraibeira e oiticica. Já nos aluviões é bastante comum a ocorrência de carnaubeiras que, nas várzeas do Baixo-Açu, chega a formar cocais atualmente ameaçados pela expansão da agricultura irrigada.

    A cobertura vegetal da bacia em sua maior parte se encontra bastante antropizada em decorrência da abertura de áreas para exploração agrícola e principalmente pela exploração de lenha como fonte energética para olarias, panificadoras e uso doméstico. Além da perda de biodiversidade, a remoção da vegetação sem critérios de manejo, expõe o solo à ação erosiva das chuvas provocando o transporte de partículas para os corpos hídricos e causando o gradual assoreamento dos reservatórios da região. Por conta desse padrão de ocupação humana a região do Seridó Potiguar, que compreende a parte oriental da bacia, nas proximidades dos municípios de Caicó, tornou-se um dos focos de desertificação presentes no país, demandando ações específicas para reverter o problema.

  • Perfil Socioeconômico
  • A Bacia abrange, completa ou parcialmente, 147 municípios sendo 102 na Paraíba e 45 no Rio Grande do Norte. Nesses municípios vivem aproximadamente 1.280.000 habitantes, 67% deles na Paraíba. A taxa média de urbanização na bacia fica em torno de 66% e a grande maioria dos municípios (75%) tem menos de 10.000 hab. A maior cidade da Bacia é Patos (88.000 hab.). Outras cidades importantes são Sousa, Cajazeiras e Pombal na Paraíba, e Caicó, Assu e Currais Novos no Rio Grande do Norte. O IDH médio dos municípios da Bacia está em torno de 0,66.

    A população urbana da bacia conta com bons índices de atendimento de abastecimento de água, 96% de atendimento na Paraíba e 92% no Rio Grande do Norte, a par de baixos índices de cobertura por redes de coleta de esgotos (2,46% na Paraíba e 13,95% no Rio Grande do Norte. 

    A agropecuária é a principal atividade econômica da região, onde se destaca a pequena agricultura de subsistência de feijão, milho consorciado e a pecuária extensiva. O cultivo de algodão arbóreo (“mocó”) já foi uma importante atividade econômica na região, e, ao contrário do algodão comum, era um cultivo perene, resistente à seca, que alimentava um grande número de usina de beneficiamento, e que além de uma fibra de excelente qualidade, tinha como subprodutos óleo vegetal e ração animal (torta de algodão). Era uma fonte de renda segura para o produtor. No final dos anos 80 com a chegada do bicudo, praga de difícil controle nas condições da região e depois com a abertura do mercado nacional às importações subsidiadas de países da Ásia nos anos 90, a cultura, que no início dos anos 80 era plantada em mais de 2 milhões de hectares no Nordeste, entrou em declínio, e hoje a área cultivada está em torno de 1.300 hectares.

    A agricultura irrigada foi adotada como estratégia de desenvolvimento regional, pelo governo federal, através do DNOCS, e mais recentemente pelos governos estaduais. Isto resultou num conjunto de perímetros operando com grau de sucesso variável, descritos na tabela abaixo:

      Perímetros irrigados públicos na bacia do Piranhas-Açu


    Perímetro

    Município

    Área
    irrigável (ha)

    Área implantada (ha)

    Várzeas de Souza

    Sousa e Aparecida

    5.000

    1.000

    São Gonçalo

    Souza

    3.046

    2.267

    Engenheiro Avidos

    Cajazeiras

    500

    100

    São Bento

    São Bento

    147

    147

    Eng.º Arcoverde

    Condado

    278

    278

    Lagoa do Arroz

    Cajazeiras,S.João do Rio do Peixe e Santa Helena

    980

    300

    Gravatá

    Nova Olinda e Pedra Branca

    940

    200

    Piancó I

    Pombal, Coremas, Cajazeirinhas

    543

    249

    Piancó II

    Boaventura, Diamante, Ibiara e Itaporanga

    1.000

    1.000

    Piancó III

    Itaporanga e Piancó

    750

    ?

    Escondido

    Belém do Brejo do Cruz

    100

     

    Carneiro

    Jericó

    639

    50

    Pilões

    São João do Rio do Peixe, Poço de José de Moura e Triunfo

    250

    180

    Poço Redondo

    Santana de Mangueira e Ibiara

    300

    ?

    Projeto Bruscas

    Curral Velho

    500

    ?

    Conceição I e II

    Conceição

    1000

    ?

    Santa Inês

    Santa Inês

    500

    ?

    Capoeira

    São José do Bonfim, Patos e Santa Terezinha

    170

    20

    Farinha

    Patos

    ?

    ?

    Baixo - Açu (DIBA)

    Ipanguaçu, Alto do Rodrigues e Afonso Bezerra

    5.168

    5.168

    Mendubim

    Assu

    804

    ?

    Pataxó

     

    2500

     

    Cruzeta

    Cruzeta

    196

    58

    Itans

    Caicó

    69

     

    Sabugi

    Caicó

    403

    325

    Além dessas áreas existe a pequena irrigação difusa praticada às margens dos açudes e vales perenizados, onde se cultiva gêneros alimentícios e pastagens. Mais recentemente na área do Baixo Açu tem havido a expansão da agricultura irrigada em grandes lotes empresariais onde se cultiva principalmente banana, e que tem sido alvo de denuncias por grupos ambientalistas por conta de práticas inadequadas de aplicação de agrotóxicos e descarte de resíduos de tratamento fitossanitários no rio Piranhas-Açu.

    A atividade industrial na Bacia compreende a indústria têxtil em São Bento, curtumes, sal, cerâmica e laticínios e a indústria de Petróleo e Gás nas proximidades do Alto do Rodrigues e Macau.

    A mineração é explorada principalmente no Seridó dos dois Estados, onde predomina a extração de pegmatitos, scheelita e pedras semipreciosas (água marinha, berilo, turmalinas, etc.)

    A Carcinicultura, criação de camarões, é uma atividade que tem teve uma expansão considerável na região do Baixo Açu tornando o Estado do Rio Grande do Norte no maior produtor nacional deste crustáceo. No entanto a atividade é acusada de depredar os mangues e de poluir o Sistema flúvio-marinho com os efluentes da despesca.

  • Sistemas de Águas Superficiais
  • Historicamente a açudagem foi a principal estratégia adotada pelo poder público para lidar com o problema da Seca. Inicialmente o Poder Central através do DNOCS, e posteriormente os Estados construíram uma rede de armazenamento sem paralelo em nenhuma outra região semi-árida do mundo.

    Na bacia do rio Piranhas-Açu, incluindo os já citados reservatórios Curemas-Mãed’água e Armando Ribeiro Gonçalves, existem 46 reservatórios considerados estratégicos por apresentarem capacidade de armazenamento superior a 10 milhões de m³. Esse caráter estratégico advém do fato de que só a partir dessa capacidade o reservatório pode fazer frente a períodos de estiagem e realizar a passagem entre períodos chuvosos. Abaixo está a relação dos reservatórios estratégicos da bacia.

    Reservatório

    Município

    UF

    Capacidade
    milhões m³

    Catolé I

    Manaíra

    PB

    10,50

    Timbaúba

    Juru

    PB

    15,44

    Saco

    Nova Olinda

    PB

    97,49

    Bruscas

    Curral Velho

    PB

    38,21

    Piranhas

    Ibiara

    PB

    25,70

    Bom Jesus II

    Água Branca

    PB

    14,17

    Jenipapeiro (Buiu)

    Olho d'Água

    PB

    70,76

    Queimadas

    Santana dos Garrotes

    PB

    15,63

    Cachoeira dos Alves

    Itaporanga

    PB

    10,61

    Cachoeira dos Cegos

    Catingueira

    PB

    71,89

    Coremas-Mãe D'água

    Coremas

    PB

    1.358,00

    Engenheiro Arcoverde

    Condado

    PB

    30,59

    São Gonçalo

    Sousa

    PB

    44,60

    Capoeira

    Mãe d'Água

    PB

    53,45

    Farinha

    Patos

    PB

    25,74

    Jatobá I

    Patos

    PB

    17,52

    Santa Luzia

    Santa Luzia

    PB

    11,96

    São Mamede

    São Mamede

    PB

    15,79

    Pataxó

    Ipanguaçu

    RN

    24,37

    Eng. Arm. R. Gonçalves

    Assú

    RN

    2.400,00

    Mendubim

    Assú

    RN

    76,35

    Boqueirão de Parelhas

    Parelhas

    RN

    85,01

    Caldeirão de Parelhas

    Parelhas

    RN

    10,00

    Esguicho

    Ouro Branco

    RN

    21,57

    Carnaíba

    São João do Sabugi

    RN

    25,71

    Sabugi

    São João do Sabugi

    RN

    65,33

    Várzea Grande

    Picuí

    PB

    21,53

    Passagem das Traíras

    Jardim do Seridó

    RN

    48,86

    Itans

    Caicó

    RN

    81,75

    Marechal Dutra

    Acari

    RN

    40,00

    Cruzeta

    Cruzeta

    RN

    35,00

    Dourado

    Currais Novos

    RN

    10,32

    Rio da Pedra

    Santana do Mato

    RN

    12,43

    Beldroega

    Paraú

    RN

    11,37

    Carneiro

    Jericó

    PB

    31,29

    Riacho dos Cavalos

    Riacho dos Cavalos

    PB

    17,70

    Tapera

    Belém do Brejo do Cruz

    PB

    26,42

    Baião

    São José do Brejo do Cruz

    PB

    39,23

    Escondido

    Belém do Brejo do Cruz

    PB

    16,33

    Santa Inês

    Santa Inês

    PB

    26,12

    Serra Vermelha I

    Conceição

    PB

    11,80

    Condado

    Conceição

    PB

    35,02

    Bartolomeu I

    Bonito de Santa Fé

    PB

    17,57

    Eng. Avidos

    Cajazeiras

    PB

    255,00

    Lagoa do Arroz

    Bom Jesus

    PB

    80,22

    Pilões

    São João do Rio do Peixe

    PB

    13,00

    Considerando que o potencial de construção de açudes está bem próximo do ponto de esgotamento, além do qual a construção de novos reservatórios, pelo menos do ponto de vista hidrológico, provocaria deseconomias através do aumento de perdas por evaporação, um desafio que se impõe é a otimização do uso da água armazenada, seja através da introdução de rotinas de operação mais racionais, seja pela melhoria técnica dos processos produtivos dos usuários, principalmente irrigantes e concessionárias de abastecimento.

    Outro tipo de problema preocupante, e relativamente recente, é a ocorrência de florações de cianobactérias nos reservatórios da Bacia. Essas bactérias podem produzir toxinas, que não são removidas por métodos de tratamento de água convencionais, e que podem inclusive contaminar peixes tornando-os impróprios ao consumo. Uma provável causa para a ocorrência do problema é o lançamento de esgotos não tratados nos corpos hídricos da Bacia. Considerando que a água acumulada nos reservatórios é a principal, senão a única fonte disponível para abastecimento humano e animal, faz-se necessário uma priorização de investimentos por parte do poder público para saneamento ambiental.

       



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